Quando iniciamos as fases de estudo e miniaulas na disciplina de Ensino de História e Geografia, eu esperava algo relativamente previsível, conteúdos e orientações sobre como ensinar determinados temas. Mas, ao longo das aulas, ficou evidente que a proposta ia além e, às vezes, fugia completamente do esperado.
Fomos orientados a levar dois livros, um de biblioteca e outro que tivesse relação com nossa personalidade. Levei um livro da biblioteca do CH1 sobre o chamado “jeitinho brasileiro”, com uma análise sociológica interessante sobre cultura e comportamento. Para a segunda escolha, levei Misery, de Stephen King, último livro que li (ou melhor, reli) que dialoga com meu gosto por narrativas mais intensas.
Em um dos dias, não consegui levar os dois livros. O que poderia ser um problema acabou sendo uma das experiências mais interessantes, o professor disponibilizou revistas de História e Geografia. Comecei sem grandes expectativas, mas acabei me envolvendo bastante. As revistas eram acessíveis, dinâmicas e ricas em conteúdo (até roubei informações para futuras histórias). Foi uma experiência leve mas marcante, me fez pensar que esse tipo de material poderia inclusive se tornar uma atividade fixa.
Outro momento importante foi a leitura dos memoriais. Admito que algumas coisas eu já intuía, sou observadora e gosto de escutar os outros, mas ainda assim foi muito significativo entrar em contato, de forma mais profunda, com diferentes pontos de vista, realidades e trajetórias difíceis que meus colegas vivenciaram, além de me reconhecer e me conectar com várias dessas histórias. Uma colega comentou que, ao ler meu texto, percebeu que eu (e algumas outras pessoas) escrevíamos muito bem sobre nós mesmos, enquanto ela se via escrevendo mais sobre terceiros. Disse que achou bonito como eu me conhecia e me expressava. Isso me deixou genuinamente feliz. Não apenas pelo elogio, mas porque escrever sobre mim, com clareza e sem rejeição, foi resultado de um processo longo de me entender, me aceitar e me acolher. Saber que isso aparece na minha escrita me trouxe um sentimento de orgulho.
Outras colegas também disseram que gostaram do meu memorial e que, em alguns momentos, parecia que estavam lendo um livro, acompanhando uma personagem. Esse retorno teve um peso especial, considerando que um dos meus objetivos futuros é me tornar escritora.
Além disso, não dá para ignorar o jeito particular do professor de conduzir as aulas. Entre dar aula descalço, propor que estivéssemos cantando às 7:30 da manhã e manter uma postura sempre acessível, ele constrói um ambiente que foge do padrão.
Ao olhar esse percurso, fica claro que a disciplina se distancia de um modelo tradicional, centrado apenas na transmissão de conteúdo. Há uma valorização da participação, da autonomia e da construção coletiva do conhecimento.
Percebo uma preocupação do professor em construir um senso de comunidade e companheirismo nas turmas por onde ele passa, visto que a universidade pode ser um ambiente extremamente solitário, vejo como essa atitude é importante e necessária. Ainda assim, a experiência não está sendo linear e nem sempre confortável.
No fim, entre expectativas quebradas e algumas surpresas positivas, ficou uma constatação, aprender a ensinar é muito menos sobre ter respostas prontas e muito mais sobre lidar com o que não sai como planejado, é lidar com pessoas reais e cruas e isso, definitivamente, não estava no roteiro inicial.
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